EGLISE IMMACULEE CONCEPTION

HELIOPOLIS, LE CAIRE, EGYPTE

O CASO AÍDA CURI – versão da família

CASO AÍDA CURI No dia 14 de julho de l958 ocorreu um dos mais horrendos crimes do Brasil. Em Copacabana, no Rio de Janeiro, por volta das 9 horas da noite, um corpo cai na Avenida Atlântica em frente ao edifício de 12 andares n. 3388. Aída Curi, (muitos escreveriam Aída Cury), nome da mocinha de 18 anos, iria se tornar conhecido em todo o Brasil e até mesmo em outros países. Seus pais, Gattás Assad Curi e Jamila Jacob Curi, eram originários da cidade de Saydnaya, na Síria, e faziam parte da Igreja Melquita Católica. Aída tinha quatro irmãos , todos hoje ainda vivos. Quando ainda eram pequenos, Dona Jamila ficou viúva. Deixando Belo Horizonte, onde nascera Aída, (Av. Santos Dumont,436), foi para o Rio de Janeiro, sendo recebida pelas bondosas senhoras Alice e Flora dos Santos Moreira, e permanecendo durante muitos anos na escola por elas dirigida, a Escola Moreira do Riachuelo, bairro da zona norte do Rio. Quanto a Aída, receberia formação esmerada num colégio de freiras espanholas, da congregação Filhas de São José, o Educandário Gonçalves de Araújo, pertencente à Irmandade do Santíssimo Sacramento da Igreja da Candelária. . Sempre foi a primeira em tudo. Deixando o Educandário, após haver completado dezoito anos, preparava-se para um concurso que iria decidir de seu futuro. Estudando em Copacabana, caíra nas malhas de um grupo de jovens da Rua Miguel Lemos deste bairro, sendo vítima de uma "curra", uma prática criminosa em que a vítima era atraída com blandícias para em seguida ser levada à força a fim de ser submetida aos atos escusos do grupo. Custou-se a encontrar todos os culpados, respaldados por gente influente e poderosa; e o Processo Criminal, com suas vicissitudes irregulares e escandalosas, foi acompanhado pelas famílias brasileiras, de Norte a Sul do Brasil. Até hoje, muito resta a esclarecer . São inúmeras as pessoas que desejam saber o que realmente aconteceu e quem era Aída Curi. Este fato foi e continua sendo emblemático neste último meio século de vida social de nossa pátria. Muitos foram os jornalistas que em artigos ou reportagens publicados em revistas ou jornais interpretaram a seu modo o fato criminoso sem consultar a família da vítima ou agindo até contra a vontade da mesma, deturpando os fatos com informações imprecisas e falsas, e às vezes até, sem querer, conspurcando a honra de Aída . E o que é mais: sendo interpelados pela família não se retrataram. Mesmo um importante canal de TV, em programa de grande audiência, teve a ousadia de levar ao ar um filme, sem levar em conta a oposição da família e até uma Notificação judiciária feita antes do programa. E deturparam os fatos , fazendo entender que ela subira porque quis e mostrando-a no terraço do prédio como ingênua, deslumbrada diante da praia de Copacabana, reagindo somente quando os assassinos tentaram o ato sexual. Preferiram eles crer na versão suspeita dos assassinos e no ouvi - dizer popular, desprezando a versão da família e as provas incontestes dos Autos. Tentarei, portanto, resumir em poucas linhas o fato criminoso, dando a versão de nossa família, baseado nos Autos do Processo que tivemos em mãos e nas informações obtidas seja pessoalmente ou através de parentes, amigos, conhecidos ou entrevistados, relevando algumas incógnitas do crime acontecido no dia l4 de julho de l958. O FATO CRIMINOSO Terminada a aula do Curso de Datilografia na Escola Remington da rua Miguel Lemos em Copacabana, Aída sai em companhia de uma colega de Curso, como de outras vezes, dirigindo-se ao ponto do ônibus, quando ambas são abordadas por rapazes que costumavam se reunir próximo à rua Miguel Lemos. Isto aconteceu por volta das sete e meia da noite. Aída contava na época l8 anos e a colega 36; quanto aos rapazes, o mais jovem tinha l6 anos e os outros entre l8 e 22, sendo que o porteiro do edifício do crime 27 anos. Deixando cair umas chaves, e perguntando se era delas, com o objetivo de entabolar conversa, um dos implicados recebe de Aída a resposta "que não queria conversa" (fls. 84 dos Autos do Processo). Diante desta resposta desconcertante e que desencorajava os rapazes, um deles toma dela a caixa de óculos (fls. 45, 84 e 185). Momentos depois de lhe tomarem os óculos, foi-lhe arrebatada também a bolsa (fls. 405 v). O estojo com os óculos estaria nas mãos de um dos agressores no momento mais acirrado da luta lá no apartamento. "Entregou ao declarante um estojo de couro, com os óculos…dizendo : olha o que eu tomei dela" (fls. 16 e 45 ). A uma nova investida de um rapaz do grupo que dizia que devolveria os objetos se ela lhe desse um beijo, a determinação e atitude de Aída são claras. Segundo um dos presentes “Não deu nem quis dar o beijo pedido”( fls. 516 ). Ainda segundo os Autos do Processo, neste preciso momento, e quando Aída, indo em busca dos seus pertences (na bolsa estava também o dinheiro para voltar para casa fls. 7 ), já se encontrava bem em frente ao edifício Rio Nobre (fls. 405 v), afasta-se a colega, dizendo para os rapazes que deixassem Aída às 8 horas no ponto do ônibus (fls. 19). Aída , agora sozinha, tenta por todos os meios recuperar os objetos dela tomados. Em sua ânsia de retomá-los , e estando já às portas do prédio do crime, residência de um dos culpados, não desconfiou um segundo sequer das reais intenções dos rapazes, intenções que estavam bem longe de tudo o que ela poderia imaginar…Não se fale em “ingenuidade”, mas desconhecimento completo do grau da falsidade e da perversidade dos jovens já afeitos a este gênero de violência sexual. De fato, a « curra » já estava em andamento . A violência sexual era prática freqüente na Zona Sul do Rio.Os autores destes atos eram encorajados, de um lado, pela inércia da Polícia e, de outro ,pela impunidade, caso fossem presos. . Segundo os comentários ouvidos então, outras moças ja haviam escapado das malhas deste mesmo grupo de jovens que se reuniam na esquina da Rua Miguel Lemos, perto da Escola Remington onde Aída estudava Datilografia. A violência física propriamente dita teve início na porta do elevador social ( o qual era raramente usado pelos moradores do prédio ), para dentro do qual a inditosa Aída havia sido puxada. O detalhe desta primeira agressão, quando é introduzida no elevador à força , foi revelado à nossa família por duas testemunhas que preferiram na ocasião guardar o anonimato. Aída sente o pavor da agressão e da traição, reage, grita ("Bem que eu ouvi uns gritos",diz alguém à nossa mãe quando esta chega ao local na noite do crime), mas o elevador ja está em movimento. Pára no 12º andar e, segundo as primeiras notícias do jornal carioca "O Globo" aos l6 de julho de l958, foi dentro do apartamento 1201, ainda em construção, cheio de entulhos e às escuras, com o piso ainda não taqueado, que Aída continuou a se defender das investidas de dois ou três agressores, tendo Aída mesmo num primeiro momento tropeçado nas peças de madeira (esquadrias) (fls. 241). Perde os sentidos em conseqüência do stress após a luta desigual. Seu corpo em estado de completa exaustão física é transportado ao terraço, sendo utilizada para isto uma escadinha em caracol que do l2º andar conduz ao terraço; é colocado em seguida sobre o peitoril e lançado à Avenida Atlântica. É reveladora e importante no Processo (fls. 26) a pergunta feita ao porteiro do edifício por um dos envolvidos : "no dia em que a moça foi jogada , você não desceu pelas escadas ?" Poucos instantes depois de seu corpo haver tocado o solo, são vistos ao lado da vítima a bolsa, o caderno e o livro que lhe pertenciam. Dentro da bolsa foram encontrados o lencinho manchado de sangue e os óculos despedaçados. O lencinho dobrado e manchado de sangue dentro da bolsa era uma das provas da resistência de Aída, contra os interessados que desejavam fazer crer que todos os indícios de agressão encontrados em seu corpo não eram senão conseqüência da queda. Estavam, no entanto, ali a caracterizar a luta dos rapazes para a imobilização da vítima o rasgamento da anágua, bem como o violento arrancar do porta-seios (fls. 353). Mesmo na ausência de provas como estas, a violência ficou sobejamente provada durante a reconstituição do crime : a bofetada, o rasgamento das vestes… Poucas foram as palavras proferidas por Aída durante a luta ( pelo menos é o que nos referem os réus em seus depoimentos durante o Processo): "Deixem-me ir embora" e "Eu sou virgem". Era devota de Santa Maria Goretti , menina italiana de 12 anos, mártir da castidade. Aída escreveria com sangue o que havia registrado em seu caderno de notas pessoais: "Antes morrer que pecar". Um dia depois do crime, na sede do Instituto Médico Legal , secção de necrópsias, procedeu-se ao Auto de exame cadavérico do qual participaram os médicos legistas , doutores Mário Martins Rodrigues e Rubens Pereira de Araújo, indicados pelo Diretor do Instituto Médico Legal, Dr. Jessé de Paiva. Após acurada inspecção do cadáver no qual detectaram equimoses, escoriações e vestígios evidentes de sevícias diversas, foi colhida e distendida em lâmina, para pesquisa de espermatozóide, substância retirada dos condutos vaginal e ano-retal (fls. 60 v ) assim como foram examinados fragmentos de tecido de malha de cor negra. No dia primeiro de agosto os médicos legistas deram as conclusões das pesquisas : Negativo.(fls. 172) . Aída morrera virgem ! O CONTEXTO SOCIAL DA ÉPOCA Vale lembrar ainda que, nos anos 5O, filmes de violência e rebeldia eram exibidos no Brasil e atingiam a psicologia mal formada de alguns adolescentes do Rio, exemplos "O Selvagem", com Marlon Brando e « Juventude Transviada », com James Dean.. O Rio de Janeiro vivia momentos inquietantes com o fenômeno da “juventude transviada”, protagonista também das famosas "curras". Esperava-se da Polícia reação pronta e mais severa. As famílias da zona sul estavam praticamente desamparadas. Duas ou três semanas antes da morte de Aída, um mendigo tinha morrido em Copacabana…incendiado por mãos criminosas de um jovem do bairro (fls. 130 v). Nenhuma notícia nos periódicos de então, sobre uma séria sindicância ou mesmo simples pesquisa policial com referência à autoria deste revoltante crime!… Para tornar mais dramático ainda o quadro social, a droga já se instalara em Copacabana. Não seria uma suposição infundada que alguns dos implicados neste crime já estivessem sendo aliciados por este vício. Falou-se na época que teria havido entorpecente no caso e inclusive que « bocas de fumo » existiam próximo ao local do crime. É quase impossível conhecer toda a profundidade da degenerescência moral do grupo que tentou arrebatar a honra e a inocência de Aída. AS INCÓGNITAS DO CRIME Muitas questões ficaram sem resposta até os dias de hoje: 1 – Deu-se realmente o fato, segundo se dizia, que Aída já era seguida há algum tempo pelo grupo, com objetivos inconfessáveis, sem que ela se desse conta ? 2- Teriam estado lá em cima, na hora da luta, outras pessoas que faziam parte do grupo, além dos dois que sendo maiores foram julgados pelo Tribunal do Júri e do menor implicado que não foi a julgamento mas recolhido ao Juizado de Menores ? Um dos envolvidos afirmou "conhecer os hábitos da turma, de quererem participar dos encontros amorosos dos companheiros" (fls 51). Comentou-se na época que, além destes três, outras duas ou três pessoas também subiram… e lá ficaram escondidas na hora do assédio criminal. Um deles declarou que, no momento da queda do corpo, esteve na entrada do prédio procurando pelo porteiro: "entrou no prédio, saindo pela Avenida Atlântica"(fls. 12 v) .O porteiro nao foi encontrado. Esclarece mais o mesmo declarante : "no preciso momento em que entrou, a moça caiu" (fls. 410).Este quarto personagem foi igualmente condenado a 1 ano e 3 meses de prisão. 3- Estaria apenas desfalecida ou estava já morta quando o seu corpo foi lançado ? 4- De quem partira a idéia macabra de arremessar o corpo ? Duas hipóteses foram levantadas na época : teria sido por iniciativa dos próprios rapazes, supondo que estivesse morta, ou a conselho de moradores e freqüentadores do prédio para simular o suicídio. 5- E quais as pessoas que lançaram o corpo ? 6- Quem desceu do alto do prédio para colocar o livro e a bolsa de Aída ao lado do cadáver na Avenida Atlântica? Um senhor nos contou que nada vira ao lado do corpo quando passava por ali exatamente após a queda do corpo. SUICÍDIO OU HOMICÍDIO ? Desde o início, foi descartada a hipótese do suicídio, quer pela Perícia Criminal quer por todos os que conheceram Aída. E aqui cabe uma pergunta ainda : Por que a Perícia Criminal só foi avisada três horas após o crime ? Que teriam feito os interessados neste espaço de tempo com o objetivo de despistar a Polícia da verdadeira e única versão do crime e fazer crer que a morte se dera por auto-determinação da vítima ? A exclusão da hipótese de um simples suicídio e ponto final coube inicialmente a um homem impoluto, o perito criminal Seraphim da Silva Pimentel. Este, após haver observado o corpo ferido brutalmente, durante o assédio sexual de que foi vítima, ordena a detenção do porteiro do edifício Rio Nobre, contrapondo-se , desta forma, àqueles que se esforçavam por fazer crer, desde o início,que se tratava de um simples suicídio.. Este perito afirmou-nos que se não fosse ele, o crime ia morrer no nascedouro… Sofreria este profissional experimentado e correto extrema pressão moral a fim de escamotear a verdade mas permaneceu inabalável… Mais tarde, seria afastado do Processo e substituído por alguém ligado à família de um dos implicados… Inúmeros detalhes permaneceram na obscuridade pois a nenhum dos implicados interessava revelar nomes de pessoas que por sua vez pudessem comprometê-los ainda mais. Ainda a ser esclarecidos detalhes que vêm corroborar de modo inequívoco a afirmação relativa a um real atentato violento ao pudor e tentativa de estupro , tais como : as marcas e contusões em seu corpo provocadas por objeto contundente (foi recolhido durante as investigações um anel com a efígie de São Jorge usado por um dos implicados) ; o ferimento causado pelo « soco inglês » , peça metálica usada para aumentar a contundência dos socos, (um detalhe da agressão a nós revelado por um dos entrevistados, que obtivera esta informação de um amigo que havia estado com um dos culpados na mesma noite do crime ) ; os ferimentos profundos no seio podendo ser provocados por unhas ou dentes (perícia jamais concluída) , assim como a não-apresentação das suéteres usadas pelos assassinos durante a luta com a vítima. Estas e muitas outras questões ficam aguardando a confissão da verdade por algum dos envolvidos a fim de tranqüilizar a própria consciência e dar satisfação à nossa família e à Sociedade . « UM MAR DE LAMA » Jamais se poderá aquilatar o jogo de influências para o acobertamento dos criminosos e o grau de conspiração do silêncio para a deturpação da verdade. O combativo jornalista e repórter brasileiro David Nasser terçou armas, ameaçado em sua incolumidade física, a fim de que as forças ocultas não prevalecessem… O advogado Dr. José Valladão, representante da mãe da vítima como parte assistente no processo-crime instaurado contra os responsáveis pela morte de Αída, convicto da inocência de Aída, nao titubeou em proclamá-la, alto e bom som. Haveria ele de enfrentar os advogados de defesa dos acusados, que em sua torpe e solerte ação para livrar os seus clientes da prisão, assacavam toda sorte de dúvidas sobre a virtude da vítima. A técnica da defesa dos acusados consistia em colocar toda a culpa sobre o menor implicado, tendo em vista que este não se sentaria no banco dos réus, em seguida fazer crer a todo custo a aquiescência de Aída às solicitações dos culpados e finalmente provar que se tratava de um suicídio. Falou-se da atuação de altas patentes das Forças Armadas e de figuras importantes da Polícia assim como de próceres políticos influentes , todos ligados aos implicados, ou parentes dos mesmos. Dizia-se ainda que o porteiro do prédio, que ficara foragido durante vinte anos, até que fosse prescrito o crime, fora protegido por alta patente das Forças Armadas. Era voz comum ademais que testemunhas, em número expressivo, que teriam muito para esclarecer, nunca foram ouvidas, foram afastadas para bem longe ou silenciaram com medo de represálias… O Promotor Maurílio Bruno de Oliveira Firmo, que atuou neste caso, falou de “um mar de lama” no Processo. Resta igualmente misterioso o porquê da impronúncia dos réus por um dos juízes do Processo, após a condenação dos mesmos a altíssima pena pelo Tribunal do Júri, presidido pelo juiz Octávio Pinto. No dia em que foi exarada esta sentença, o Brasil acordou sobressaltado!... A impronúncia motivou uma série de reprovações pelo Brasil inteiro, inclusive uma declaração, pela Imprensa, do Eminentíssimo Senhor Cardeal-Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Jaime de Barros Câmara que por sinal conhecera pessoalmente Aída, por ocasião das visitas que fazia periodicamente ao Educandário Gonçalves de Araújo, em São Cristóvão, o colégio de freiras dirigido pela Congregação das "Filhas de São José", onde Aída havia permanecido doze anos. Para tranqüilidade do povo, o renomado e douto Curador João Baptista Cordeiro Guerra, insigne mestre de Direito, reduziria a pó as razões da Impronúncia, mandando os implicados a novo julgamento, onde um deles foi condenado finalmente a 8 anos de prisão enquanto o segundo não foi julgado por estar naquele momento foragido. UM APELO Não resta dúvida que o esclarecimento dos detalhes da « Curra », bem como a denúncia e elucidação dos pontos obscuros do Crime e do Processo são de suma importância para que venham à luz ainda mais a inocência e a pureza de Aída. A nós não interessa absolutamente condenar ou acusar quem quer que seja, sobretudo após tantos anos passados. É importante saber também que nossa mãe antes de morrer perdoou a todos, em nome de seus quatro filhos, Nelson, Roberto, Maurício e Waldir. A carta data de 29-9-l975 com a conclusão "Com o perdão de todos os meus filhos". Assinado Jamila Jacob Curi. O leitor deste relato poderá imaginar a grandeza deste gesto, visto Aída ser filha única, e ela, mãe amargurada e perseguida pelas imagens da resistência desesperada da filha tão meiga e carinhosa. Queremos, sinceramente, dar aos culpados a possibilidade de recomeçarem uma vida nova, purgando pelo arrependimento o passado negativo, fazendo doravante somente o bem, logrando assim a paz e a serenidade para eles e para as suas famílias tão sofridas e provadas também. Tudo o que relatamos acima é também ocasião de um apelo a todo e qualquer conhecedor de fatos, jamais explicados ou suficientemente esclarecidos, para que digam o que sabem. Será um benefício para a sociedade que assim ficará ciente de que a verdade um dia vem à tona, que a mentira e o erro nao têm a ultima palavra... O conhecimento dos fatos bem como a reação popular , sem extremismos nem condenações e julgamentos, mesmo após quase meio século, são necessários para que casos como este não se repitam. E mais ainda : que as novas gerações saibam que o Brasil tem memória e que há quase meio século assistimos a um Crime e a um Processo em que campeou a corrupção e imperou a impunidade assegurada pelos grandes que deveriam salvaguardar a paz das famílias. O autor destas linhas deseja que fique patente a todos a sua inteira isenção de ânimo bem como fique conhecida a atitude de perdão incondicional da família ; outrossim faz votos que os leitores tenham estes mesmos sentimentos. Temos em Cristo a orientação fundamental : « Sede misericordiosos, como o vosso Pai celestial é misericordioso ». Cairo, 14 de julho de 2006 Monsenhor Maurício Curi Irmão de Aída Curi

O Perdão da mãe de Aída Curi

Quis Deus conceder à mamãe uma graça enorme, coisa humanamente bastante difícil. Pouco mais de dois anos antes de morrer (era o Ano Santo de 1975), havia me enviado do Rio (eu me encontrava em São Paulo) uma carta em que dava o perdão para todos os que se viram envolvidos na morte de Aída

Rio, 29-9-1975                                                                                                  

Queridíssimo filho Maurício,

O que você queria tanto chegou: o perdão!

Perdão para os assassinos e todos aqueles que contribuíram para a morte de minha filha! Pedi tanto a Deus, com muita fé, e bem do fundo do meu coração, que me desse força e coragem para sincera­mente perdoar. Senti uma coisa estranha, difícil de explicar. Primeiro uma pontada forte no coração e a seguir, senti uma coisa no meu corpo, que abalada comecei a chorar. Como se eu estivesse adormecida, e o toque no coração me despertasse. Chorei tanto, sentindo de dentro de mim sair o perdão que você tanto desejava.

Emocionada eu não estou sabendo explicar como foi. Foi a fé tão grande com que pedi a Deus forças para perdoar. Agora eu sei o que é um milagre. É uma coisa maravilhosa! Sei que estou bem com Deus. Ele me ouviu. Quando se dá o perdão de coração não há explicação.

Eu queria que o mundo inteiro soubesse da pureza de Aída. Cabe-me este direito. Mas não tem importância. Já dei o meu perdão de verdade mesmo.

De sua mãe abraços e muitos beijos

                                                                                                Jamila Jacob Curi

E no seu Diário, com data de 26 de setembro de 1975, encontrei esta página, sob a epígrafe "Perdão de Mãe":

Passei um domingo com meu filho Padre Maurício, em São Paulo. Saímos, foi no mês de setembro de 1975. Fomos visitar umas moças do Movimento dos Focolares. Este Movimento foi fundado em 1943 por Chiara Lubich, na cidade de Trento, na Itália. O Maurício disse-lhes: eu gostaria que minha mãe desse o perdão, assim como eu dei  o meu de coração.

Dia 26-9-1975, sexta-feira. Quando eu vim de ônibus para abrir a loja, eram 7 horas e meia. Pedi a Deus que fizesse com que eu sentisse em mim a vontade de perdoar os assassinos de minha filha Aída. Surgiu o milagre de Deus. Agora eu sei o que é sentir um toque no coração, quando se pede com fé. É isto que a humanidade deve ter: a grande fé da vida.

Eram 3 horas e 15 minutos do dia 26-9-1975, dia meio frio, querendo chover. Senti um toque em meu coração, uma coisa estranha. Falei espontaneamente: O Perdão! E logo em seguida foi como se uma alma, um espírito se desprendesse de dentro de mim. E falei: Chegou a hora para eu perdoar os assassinos de minha filha Aída. Senti uma emoção tão grande! Chorei muito mesmo.

Padre Maurício Curi, meu filho, sempre me dizia: gostaria que a senhora desse o seu perdão, porque eu já dei o meu de coração. Depois de 17 anos e dois meses da morte de Aída, senti o toque para perdoar.

Com o perdão de todos os meus filhos

Assinado

Jamila Jacob Curi

O seu perdão  não  se limitou a esta  atitude heróica aqui relatada.  Nossa mãe continuou a rezar por um dos implicados e por sua genitora. Os leitores  poderão  avaliar a sua nobreza e o seu sentimento de mãe sofredora mas  que, somente apoiada por uma força divina, sabe ir além  da sua própria dor!...

"Foi  na Ordem Terceira quando eu estava doente.    Deus compreenderá as minhas palavras puras de verdade.

Dia 27-28 de outubro de 1976.

A Irmã  como sempre de costume vem nos dar a hóstia. Eu pedi  de coracão  que perdoasse  a R.  pois ele já sofreu muito e a sua santa mãezinha está sofrendo mais.  Isto digo  do fundo do meu coração.  São palavras de sentimento de  mãe,  que sofreu  e sente  profundamente a dor da mãe de R. Que Deus o perdoe.         Jamila Jacob Curi.

Os originais destes documentos encontram-se em poder de

Monsenhor Maurício Curi, irmão de Aída Curi.

Refletindo no gesto sublime de minha mãe, lembrei-me do célebre dito de um pagão, Libório, mestre de São João Crisóstomo,  Santo do Oriente falecido em  438.  Referindo - se à  mãe deste Padre e Doutor da Igreja, dirigiu – se ao auditório,  que tinha diante de si, elogiando-a  com  estas palavras:

-"Que senhoras respeitáveis  existem entre os cristãos!"

Monsenhor Maurício Curi

"NÃO!" "EU NÃO VOU!"

"NÃO!"

"EU NÃO VOU!"

Carta revela inocência

de Aída... desde o princípio

Rio de Janeiro, 11 de junho de 1976

Prezado Padre Maurício Curi,

Escrevo-lhe esta para comunicar-lhe o que eu soube a respeito do caso de sua irmã Aída Curi.

Ouvi de uma amiga de muitos anos, pessoa de bem e de integridade moral comprovada, católica praticante, de comunhão freqüente, o seguinte fato:

Esta senhora ia passando, na noite do crime, em frente ao Edifício Rio Nobre, onde se deu o fato trágico de sua irmã, quando dois rapazes negavam a uma moça algo que eles tinham nas mãos e que ela supunha ser a carteira desta moça. A moça pedia o tal objeto com as palavras: - "Me dá", "Não", "Eu não vou", "Me dá"! (Alguma coisa assim). E eles insistiam em tom de brincadeira: - "Eu te dou aqui, vem aqui que eu te dou".

Um ia mais do lado do elevador, e o outro do lado da moça. Essa senhora me afirmou que a moça era muito bonita.

Quando se aproximaram do elevador, um abriu a porta do mesmo e entrou, enquanto o outro a forçou um pouco a entrar. O primeiro, que já estava dentro do elevador, pegou a mão da moça e a puxou para dentro, enquanto esta fez menção de recuar, tentando fugir; nada adiantou.

Foi fechado o elevador e esta senhora nada mais viu. Pensou na ocasião tratar-se de uma brincadeira. Pelo traje, modo de agir, percebeu que era moça de família e não pôde suspeitar de segundas intenções deles. Somente depois, digo, depois de vê-la morta na rua e reconheceu nela a mesma mocinha que relutava com eles, negando-se a acompanhá-los, eis que teve ímpetos de gritar de dor.

Esta senhora morava próximo ao edificio do crime.

Eis o que eu ouvi da minha amiga.

Sou mãe de família, católica praticante, de comunhão freqüente e pertenço a uma associação religiosa.

Ditei esta carta para minha filha escrever, pois tenho a vista um pouco fraca.

Atenciosamente

Maria do Céu Rodrigues

Rua Visconde de Pirajá, No 287 apt. 501, Ipanema – Rio de Janeiro.

O mesmo fato relatado na carta de Da Maria do Céu Rodrigues é lembrado por Da Flora dos Santos Moreira em correspondência a mim dirigida. Da Flora era subdiretora da Escola Moreira, onde nós, irmãos de Aída, estudamos o primário. Da Flora tornou-se grande amiga de nossa família.

Embora com outras palavras e versão um pouco diversa nos detalhes, a sua carta revela substancialmente o mesmo fato da violência para levar Aída para dentro do prédio.

Da Flora estava em companhia de mamãe no dia do julgamento dos réus quando, saindo do tribunal, foram abordadas por uma senhora que disse ter acompanhado o caso desde o início, e desejava revelar-lhes algo que ouvira dias depois do crime: "Disse que se dava muito com uma senhora que tinha uma amiga que morava no prédio ao lado e vira tudo como aconteceu no princípio. A senhora que nos falava disse que a testemunha do fato estava na janela e, vendo a insistência da mocinha pedindo os óculos ao rapaz, ficou prestando atenção. Demoraram-se um pouco no – "me dá os óculos" e o rapaz - "vem buscar aqui"; em seguida a moça dizia – "anda, quero ir embora" e o rapaz ia recuando cada vez mais e respondia – "toma, apanha, está aqui, venha cá". Vendo que a moça correu para apanhar os óculos pensou que estivesse tudo acabado. Dias depois quis falar mas o marido não deixou, alegando que não queria complicações com a polícia. Jamila sabe disso. Hoje eu vim a saber que existiu realmente esta senhora que, com medo, deixou de falar".

Flora dos Santos Moreira

De fato, o prédio que se situa à direita do edifício do crime, o "Rio Nobre", tem uma fachada em pequena curva para fora, permitindo portanto a quem estivesse à janela ver facilmente o que se passava e mesmo ouvir tudo. Foi pensando nesta cena que nossa mãe tirou as suas conclusões : "Aída dizia à sua colega da escola de datilografia que a chamava : "espera, irei quando ele me der a bolsa". Ali estava tudo, até o dinheiro da passagem para voltar para casa. Nisto o porteiro estava com a porta do elevador aberta e rapidamente dois rapazes a levaram em dois segundos para o elevador" (De suas anotações pessoais).

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